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Clara Peeters - Natureza Morta com queijos, amêndoas e pães (c. 1612-1615) |
Engana-se quem pensa que no séc. XVII a mulher foi protagonista apenas como tema a ser pintado. Ela também esteve à frente das telas pintando o seu mundo.
Como não podia deixar de ser, nada foi muito fácil para aquelas que pretendiam seguir a profissão. Para começo de conversa, as mulheres não podiam sequer frequentar a academia, onde se aprendia anatomia artística, porque havia modelos masculinos posando nus. A possibilidade de ser aprendiz de um grande mestre da pintura era praticamente nula, pois uma jovem vivendo na casa de algum pintor da época não era visto com bons olhos.
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Possível autorretrato - Clara Peeters (?) -1610 |
Assim, elas limitaram suas produções aos retratos e natureza morta, temática muito desenvolvida no Barroco (estilo vivenciado pela pintora). Se posicionaram no mercado com muita dificuldade e poucas conseguiram reconhecimento em vida. Aqui, destacamos uma que além do reconhecimento, conseguiu viver de sua arte: Clara Peeters (1594 - 1657).
Encontra-se poucos dados biográficos sobre essa pintora flamenga. Sabe-se que Clara era filha do pintor Jan Peeters, nascida provavelmente na região da Antuérpia (Bélgica) e se especializou em naturezas mortas. De acordo com Alejandro Vergara, que escreveu um ensaio sobre a pintora, Clara é a pioneira em pintar natureza morta com pescados.
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Clara Peeters, 1611. Natureza morta com pescado, vela, alcachofras, caranguejos e camarões |
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Still life - com flores e Cálices |
Baseado na análise dos quadros da pintora, Vergara faz um interessante estudo da cultura material do século XVII, em que se destaca "objetos relacionados ao luxo, como copos e taças de prata dourada, vidros venezianos, saleiros de prata (o sal era bem escasso e precioso), porcelanas chinesas, conchas que eram valorizadas pela beleza, brilho e textura exótica."
Mas o que realmente chama atenção na produção pictórica de Clara são seus autorretratos refletidos em jarras e copos.
Em algumas telas em que ela aparece refletida nos objetos, vê-se a imagem da artista com a paleta na mão, querendo sutilmente se mostrar, assim como fez Jan Van Eyck na famosa tela "O Casal Arnolfini" quando se retratou no espelho pintando o referido casal. Muito mais do que aparecer, era importante se reafirmar como pintora, como mulher e obviamente mostrar sua habilidade e maestria.
Outra forma de deixar sua marca nas pinturas era cravar o próprio nome em algum objeto presente na composição, aliás, uma prática usual desde o renascimento cujos pintores começaram uma busca não só para serem reconhecidos, identificados e requisitados como para eternizar seus nomes na história. Porém, a ideia de assinar o quadro de forma explícita como veremos a partir do século XVIII ainda não era completamente assumida, vindo sempre de forma disfarçada na pintura, como parte da composição.
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Detalhe aproximado da primeira pintura apresentada neste artigo |
Sobre o estilo de Clara, Vergara enfatiza "a sua descrição detalhada de formas e texturas, o elegante contraste entre objetos luminosos e fundos escuros que tornam a composição fabulosa. Foi uma pintora valente, contra a corrente, cujas obras dão uma sensação de amor e cuidado".
Vale a pena conferir mais algumas obras e seus detalhes e brincar de "onde está a Clara?" nos objetos reluzentes.
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Clara Peeters - 1611 - Mesa |
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detalhe da pintura "Mesa" |
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Detalhe da pintura "Natureza morta com queijos, amêndoas e pães" |
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detalhe de "Still Life" |
Vídeo divulgando a exposição de Clara Peeters que está em cartaz no Museu do Prado até o dia 19 de fevereiro de 2017, comentado por Alejandro Vergara.
Apesar de mostrarmos uma mulher que venceu o mito de inferioridade atribuido ao sexo feminino quando se trata de arte, ciência ou filosofia, tenho a impressão de que o universo retratado por Clara infelizmente ainda define o local da mulher na visão de uma sociedade de classes caracterizada essencialmente pela dominação masculina. Reflete as mulheres como submissas e que por mais que se aventurem em outros mundos, não deviam sair da cozinha, aprisionadas em seus próprios reflexos...
Saudações Artísticas 🌷
Carla Camuso
Fontes:
VERGARA, Alejandro (ed.) El arte de Clara Peeters, cat. exp., Amberes y Madrid, Koinklijk, Museum voor Schone Kunsten y Museo Nacional del Prado, 2016.
http://www.mujeresenlahistoria.com/2015/02/el-reflejo-de-la-artista-clara-peeters.html
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